Comecemos na antiguidade. A formulação classica é, na verdade: "o homem
é a medida de todas as coisas" Protágoras era um representante, mesmo
que em uma posição sui generis, do movimento sofista. Essa sentença
é a expressão de um extremo relativismo, segundo o qual, a verdade é
determinada pelo ser humano, pela sua capacidade de argumentação. Toda
percepção da realidade é um processo que ocorre no sujeito. Assim toda
verdade, até mesmo empírica, depende do sujeito cognitivo. A redução
da realidade à esfera do humanamente perceptível é clara em sua tese,
que a tangente corta um círculo em mais de um ponto, contrariando assim
a geometria clássica. Também as normas morais são relativas: o homem
é medida da ética.
A sentença "Penso, logo existo" de Descartes tem muita semelhança com
o dito de Protágoras. Em busca de uma verdade última e irrefutavel,
Descartes retoma um pensamento de Sto. Agostinho (si fallor sum: se
erro, existo) e e constroi toda uma filosofia a partir desta base segura.
Mesmo que todos os conhecimentos sejam inseguros, uma coisa é absolutamente
certa: que eu existo. Mesmo que eu me engane ao pensar que 2 +2 =4,
o simples fato de EU estar enganado prova que Eu existo, pelo menos
enquanto ser pensante: res cogitans. A grande semelhança com Protágoras
é clara: o Sujeito epistêmico, o sujeito enquanto ser cognitivo, é tomado
como base do conhecimento. Mas existe uma diferença fundamental: Protágoras
tem uma pretensão metafísica. A realidade como construcao do ser humano,
enquanto Descartes tem uma pretensão apenas epistemológica: o conhecimento
da própria consciência como fundamento para o conhecimento (e não como
construção da realidade).
Dr. Phil. Guido Imaguire