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Lógica
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Questão:
Remetente: (rs014939@pro.via-rs.com.br)
Pergunta: Qual a utilidade dos Organon de Aristoteles
para a logica moderna?
inst: UPF - Universidade de Passo Fundo
nome: Péterson Costa
titulo: estudante
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Qual
a utilidade dos Organon de Aristoteles para a logica moderna?
Finalmente uma questao na area de logica e filosofia contemporanea!
Talvez fosse melhor reformular a questao para nao a torna-la facil e
trivial demais. Pois se a questao realmente é, qual a "utilidade" do
Organon para a logica forma moderna, entao a resposta é um clara e simples:
Nenhuma! Logicos moderno nao "usam" Aristoteles. Do ponto de vista puramente
tecnico formal, todo silogismo aristotelico (inclusive em sua versao
mais sofisticada, a saber, aperfeicoada na Idade Media e atingindo sua
sistematizacao mais alta com Petrus Hispanus) é facilmente e completamente
(!) deduzida de alguns axiomas e regras de deducao na logica moderna.
Ou seja, os silogismos sao uma parte infima da logica moderna (nem me
refiro a mais superior, e sim incluindo apenas calculo proposicional
e de calculo de predicados de primeiro grau), que tem uma forca dedutiva
muito mais abrangente. Na verdade, vc deve perceber que todas as figuras
do silogismo (Barbara, Celere, etc...) nada mais apresentam do que principios
que qualquer aluno secundario que ja estudou a teoria dos conjuntos
(aquela chamada desde a descoberta da antinomia de Russell de "ingenua",
ou seja nem mesmo a axiomatica - ate na versao dos circulos de Euler)
tem "instintivamente".
Se vc pergunta, por outro lado, pelo "valor" historico do Organon, bem
ai a resposta é outra. Ai tem de se afirmar que Aristoteles é o criador
da logica, ou seja, do primeiro sistema normativo do pensar correto,
e que a ciencia (toda ciencia) possivelmente nao estaria hoje onde esta
sem a sua obra. Ele foi o grande pioneiro, este é seu merito inegavel.
Bem, digo "possivelmente" porque isto tudo é especulacao. Sem Frege,
Russell poderia ter desenvolvido sua "Principia Mathematica", e Frege
com sua "Begriffsschrift" também teria, sem Russell, fundado a logica
moderna. Sem Aristoteles poderia ter havido outro. Mesmo que Kant tenha
considerado Aristoteles o criador de uma logica tao perfeita, que deste
a grecia antiga ate os dias de Kant nenhum progresso tenha sido feito,
isso nao corresponde a verdade. Kant nao conhecia os grandes progressos
da logica na idade media, e inicio da modernidade (especialmente Leibniz
nunca foi compreendido por Kant). E mesmo este valor historico de Aristoteles
deve ser relativizado: Para o desenvolvimento da logica moderna foram
estudos sobre os fundamentos da matematica muito mais importante que
estudos da filosofia antiga. De Morgan e Boole seriam os verdadeiros
"avos" da logica, nao Aristoteles.
Bem, esta é a minha convicao e penso que a da maioria dos logicos modernos.
Mas o simples fato de vc ter lancado a pergunta ja me deixa curioso:
Por que vc pergunta? Alguma trabalho? Ou vc suspeita alguma valor ou
utilidade desconhecida no Organon? Eu mesmo nao sou grande conhecedor
de Aristoteles (penso que, por outro lado, conheco a logica moderna
relativamente bem). Ficaria muito interessado em saber o resultado da
sua pesquisa (ou o motivo). E caso vc escreva um trabalho: Nao estaria
interessado em publica-lo em filosofos?
Podemos ficar em contato. Dr. phil. Guido Imaguire (8.5.2000)
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Questão:
Remetente:
(rs014939@pro.via-rs.com.br), Sexta Feira, 12 de Maio de 2000 as 20:18:29
OBSERVACOES: Desta vez vou tentar ser o mais explícito possível, Ok!
O que quero saber é: se o pensamento lógico de Aristóteles expresso
na sua obra, Organon, contribuiu ou não para a reflexão filosófica posterior?
Se contribuiu citar exemplos (autores e obras). Se não contribuiu então
dizer porquê?
Instituicao: UPF
Nome: Péterson Costa
Titulo: estudante
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Que
o Organon contribui para a lógica moderna é fora de qualquer dúvida: ele
é o idealizador e pioneiro do pensamento lógico. Mesmo que vc não encontre
um formalismo preciso na obra de Aristóteles, vc encontrará formulações
clássicas de princípios que ainda hoje norteiam a lógica. O mais importante
é certamente o princípio de não contradição, segundo o qual, nada pode
ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Além disso,
vc encontrará passagens que fundamentam o princípio de bivalência, ou
do terceiro excluído (tertium no datur): Ou x é P ou não é, uma outra
possibilidade não existe. Bem, estes princípios são rejeitados, como vc
deve saber, por alguns lógicos contemporâneos que desenvolvem lógicas
não clássicas. O lógico brasileiro de projeção internacional Newton da
Costa trabalha, por exemplo, com a chamada lógica para-consistente, que
admite contradições. Alias, seu livro "Ensaio sobre os fundamentos da
lógica" seria uma dica boa para vc. Sistemas clássicos como Petrus Hispanos
(usado como livro base de lógica por muitos séculos) simplesmente explicitam
o que Aristóteles escreveu. O estudo da lógica de Petrus Hispanos também
seria interessante para vc.
Além disso, procure as obras de Bochensky, que trabalhou muito na área
de história da lógica.
Dr. phi. Guido Imaguire
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Instituicao: Ulbra
Nome: P. Fernandes
OBSERVACOES: O ensino da Lógica.
Alternativa 1:Poderíamos pensar em apenas demonstrar teoremas e aplicações
de regras, mas ensinar isso a alunos de 16 a 18 anos, que tiveram um
baixo rendimento escolar no ensino medio, se torna muito complicado.
Alternativa 2: Poderíamos exemplicar com situações do dia-a-dia, já
que a lógica pode ser vista, penso eu, como circunstancias vivenciadas
por todos nós.
Ex.: Se sua mãe diz para você não sair de casa e, após algum tempo,
ela te pergunta: você ainda não foi ao cinema? Então você responde:
Não, você disse que eu não deveria sair de casa. Se a mãe nega que negou
essa sentença, logo, você pode eliminar a negação. ~~ Sair de casa Sair
de casa (Eliminação da Negação)
Gostaria que algum lógico me respondesse: Como é visto a contextualização
da lógica para fins didáticos?
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Muito interessante a sua questão.
De fato, os lógicos tem se dedicado muito pouco à questão do ensino
da lógica, especialmente a nível escolar (pre-universitário). Estes
procuram se dedicar a pesquisa de ponta, deixando a questão para os
pedagogos. Não penso que isso seja errado, é apenas uma estrutura da
divisão de trabalho. Piaget, por exemplo, ja se dedicou mais a esta
questão, e penso que vc podera encontrar interessantes trabalhos nesta
área.
Que a lógica não é ensinada nas escolas, é ao meu ver, quase um escândalo
da pedagogia, afinal, o pensar lógico é a base de todo fazer científico.
Enquanto filósofo e lógico, eu diria que a contextualização da lógica
é uma necessidade pedagógica. É muito mais fácil explicar o princípio
de não contradição ou o do terceiro excluído com exemplos do cotidiano.
O único grande perigo é que vc pode cair facilmente em armadilhas que
falsificam o sentido verdadeiro de algumas noções lógicas. Alguns exemplos:
A implicação material: se p, então q.
Esta noção fundamental da lógica de proposições, já conhecidade desde
a antiguidade (embora muitos contemporâneos pensem te-la inventada!)
pode ser facilmente confundida com a idéia de causalidade no sentido
empírico. "Se chove, então a rua está molhada" pode ser um bom exemplo,
mas, do ponto de vista lógico "se a lua é de queijo, então 2+2=5" é
uma sentença igualmente correta (premissa errada, toda implicação é
automaticamente correta). Se vc ensina apenas exemplos do primeiro tipo,
a criança (aliás, estudantes universitários também) associarão a implicação
com a causalidade, o que é errado. A disjunção: Ou p ou q. Uma sentença
como "ou vc vai á escola, ou vc trabalha" pode ser um exemplo. Mas traz
conotaoes psicológicas erradas: a idéia de obrigacao. È claro que do
ponto puramente logico, a idéia é logicamente errada: ele pode ficar
em casa sem fazer nada. Se ele nao "deve" fazer isso, e uma questao
etica, que nao tem nada a ver com logica. Se vc usa "ou chove ou nao
chove" vc tem aparentemente um bom exemplo, mas novamente um problema:
A crianca vai pensar na exclusao de situacoes reais e que se excluem
mutuamente, o que tambem é errado, pois a disjuncao "ou 2+2=4 ou a Napoleao
foi brasiliero" é igualmente correta e signficativa.
Uma das tarefas difícieis é, portanto, encontrar exemplos que não deturpem
o sentido original das noçoes lógicas. Penso que logicos e pedagogos
teriam de trabalhar juntos. Um metodo de ensino de logica para criancas
escolares seria um bom projeto.
Podemos ficar em contato. Gostaria de conhecer o resultado da sua monografia.
Dr. Phil. Guido Imaguire
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Instituicao: UFAC
Nome: Priscila Cunha Rocha
OBSERVACOES: pergunta sobre lógica: Em
uma cela, havia três presos: um cego, outro caolho e o terceiro com
visão normal. O Carcereiro propôs o seguinte jogo : de um conjunto de
cinco chapéus, sendo dois vermelhos e três brancos, seria escolhido,
aleatoriamente, um chapéu para cada preso. O preso que acertasse a cor
de seu próprio chapéu ganharia a liberdade. Somente seria permitodio
a cada um ver a cor do chapéu dos outrs dois presos. Aceitas essas regras
o jogo teve início. Ao se perguntar ao preso com visão normal a cor
de seu chapéu, este respondeu que não tinha condições de descobri-la.
A mesma resposta deu o preso caolho. Apenas o cego pôde responder a
pergunta e o fez corretamente, sendo posto então em liberdade. Questão:
Qual a cor do chapéu do preso cego e qual foi o seu raciocínio para
descobrir?
No raciocínio desenvolvido pelo preso cego. quais foram as premissas
e qual foi a conclusão?
A lógica é um instrumento de conhecimento da realidade? Quais são os
princípios do pensamento lógico? Qual a garantia que podemos esperar
da lógica? o Direito pode ser tido como um sistema lógico? Por quê?
Obrigada!
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Lógica e o Direito
A solucao é trivial: branco, pois so haviam 2 vermelhos, e os dois presos
que viam, viram branco-vermelho ou branco-branco (se tivessem visto
2 vermelhos saberiam que eles proprios tinham branco).
Claro que logica e um instrumento de conhecimento de realidade. Mas
em primeiro lugar, o conhecimento da lógica é um instrumento
para o conhecimento de estruturas abstratas e matematicas. O seu uso
para conhecer a realidade concreta pressupoe alguma base empírica: sem
ver, nenhum preso nao poderia descobrir nada.
A expressao "os principios do pensamento lógico" é muito vaga. Existem
diferentes sistemas com diferentes princípios. Mesmo uma formulacao
"a descoberta da verdade atraves da deducao de premissas verdadeiras"
nao é exata o suficiente, pois a logica pode trabalhar com varios valores
de verdade paraconsistentes. Classicamente, o principio basico é a lei
de nao contadicao.
Imagino que se espere que eu diga que o direito é um sistema logico.
Isso pertence atá certo ponto ao senso comum, mas é a rigor errado:
Pode-se demonstrar que os diferentes sistemas legais contem muitas contradições
internas, e portanto, nao satisfazem os padrões de consistência de um
sistema lógico. A consistência lógica é um ideal não alcancado pelos
sistemas juridicos. Que em contextos jurídicos se faz uso do pensamento
lógico, isso é uma outra questão. Até é verdade, mas isso não é grande
mérito do direito: numa discussão entre bebados de bar também se pode
fazer uso da lógica (e eles fazem constantemente: Em "Ou vc bebeu 10
cervejas ou nao" vc pode ler o tertium non datur e o princípio de não
contradição) O quão agucado e perspicaz é o uso da lógica, isso é uma
outra questao.
Dr. Phil. Guido Imaguire
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