O mal é uma das questões clássicas da moral e filosofia da religião.
Com já expliquei em outra resposta neste site (veja Descartes
e a ignorância), ao longo da tradição teológica e metafísica ocidental
distinguiram-se três formas de mal:
(1) malum physicum - o sofrimento, dor e tristeza.
(2) malum morale - o pecado, a imoralidade.
(3) malum metaphysicum - a finitude humana, tanto temporal (mortalidade)
quanto cognitiva (ignorância).
A ignorância (que também poderíamos chamar de mal epistemológico) não
é, todavia, hoje tratado sob título de mal, assim como a finitude (malum
3) não é, em geral, tida como realmente mal. O seu trabalho deve se
concentrar no (1) e (2). Algumas dicas gerais:
- Procure ler
algo de Epicuro: Ele lançou pela primeira vez a questão da teodicéica:
se existe um Deus bom, e Ele criou o mundo, como é possível mal no
mundo?
- Platão também
seria interessante. Tentando responder esta questão, Platão defende
uma depotenciação ontoloógica do mal. Ou seja: o mal, a rigor, não
existe. O mal nada mais é do que a não existência de algo, a ausência
do ser. É uma teoria que teve muita influência posterior.
- Sto. Agostinho:
O mal no mundo é resultado da liberdade humana. Deus criou o homem
livre, que, por livre escolha, pecou. Com isso surgiu o mal moral,
e o mal físico e metafísico é apenas castigo de Deus. Esta interpretação
é claramente muito próxima à intuição bíblica.
- Maniqueismo/gnosis:
na antiguidade se defendeu, todavia, opiniões contrárias, por exemplo,
que o mal é um princípio tão poderoso e eterno quanto o bem.
- Leibniz: O mal
é necessário por causa do princípio da compossibilidade lógica. Este
é o melhor mundo possível, mas mesmo no melhor mundo possível é necessário
que algumas partes sejam imperfeitas. Num mundo perfeito, não poderia
haver mudanças, pois isso signifcaria acabar com a perfeição. Por
isso é melhor um mundo "não tão perfeito" para que tenhamos ainda
"onde trabalhar".
Penso que estes são autores importantes para sua pesquisa. Claro que
quase todos grandes filósofos escreveram sobre o mal: Kant, Hegel, Fichte,
Marx (o mal social!)... mas vc não pode ler tudo. Eu até diria, escolha
2 ou 3, e se dedique mais intensivamente a eles. Uma coisa na filosofia
é certa: a profundidade no detalhe é melhor que uma abrangência superficial.
Em qualquer bom livro de história da filosofia vc poder encontra mais
informações, mas nada como ler os originais.
Boa sorte na pesquisa e reflexão!
Dr. phil. Guido Imaguire (Munique, 19.5.2000)
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